sexta-feira, 21 de setembro de 2018

A paleta de cores



   
   Em um universo paralelo que é o borderline, as emoções são uma paleta de cores radiantes e purpurinadas. Afinal, vivemos nos extremos, saltando de uma cor a outra em curtos espaço de tempo. É como se vivêssemos sempre em busca de sensações que nos tirem do estado de tédio. Um vermelho simples não basta, é necessário um vermelho carmim. Por quê um amarelo? Sem graça, preferimos uma amarela gema de ovo.
   E nesses voos entre o azul royal, rosa pink, verde limão, nos jogamos na intensidade do melhor e do pior, como se essas cores radiantes e cheias de purpurina nos protegesse e fosse nos completar do abismo cinza que existe dentro de nós. Não conseguimos ver graça nas paletas alheias, por quê o lilás, se existe o roxo que é mais forte? Qual a alegria tem a cor branca? Cadê a vida? Ela está passando!
   Então, eis que surge o fatídico diagnóstico.  Com a entrada das medicações, o trabalho terapêutico de se auto conhecer, o complexo esforço de nós entender borderline,  percebemos que as cores radiantes e cheias de purpurina eram apenas falsas sensações, fruto da nossa necessidade de intensidade. Existe um estranhamento nesse processo porque o caminho agora é de ressignificar essas cores, compreendendo que as cores não podem ser as mesmas. O enfrentamento do cinza é algo avassalador, mesmo porque vivíamos fugindo dele; e de um momento para o outro as coisas que mais temidas se concretizam: meu mundo é cinza!
   Somos purpurina, e não nos damos conta, a purpurina só é  vista  brilhando, logo só existe na luz, no escuro ela não representa nada. E  assim é borderline, procura a luz para se sentir vivo pelo olhar e atenção do outro. Por isso tanta cor e tanto brilho, tentativas vãs de sobreviver. Com o tratamento nós começamos a perceber nosso esforço frenético de ser uma paleta radiante, seja nos momentos de fúria ou euforia, apenas estamos tentando sobreviver, buscando ser notado, só que há um desgaste emocional (quase físico) nesse mecanismo, com um preço alto a pagar e todo um histórico de sensações a ser trabalhado.
   Passado o momento de desespero e devido ao estranhamento de enfrentar o mundo cinza, enfrentando a intensidade das emoções,  aqui feito uma analogia a cores radiantes, começa o processo de mudar os tons, rever a necessidade da intensidade e o porquê de tanto esforço. Os tons em nossa paleta vão ficando mais brandos, porque o desgaste emocional é menor a medida que nos apresentamos a nós mesmos.       Percebemos que os tão sem graça tons pastéis significa equilibrar os efeitos do outro em nós como os nossos efeitos aos outros, os intensos demanda muita energia. E a vida vai ficando mais leve, a ponto de um dia percebermos que sobrevivemos vítimas do medo de nossa mente cinza. Que as cores intensos eram fugas, logo viver não é fugir, é apenas viver. Construindo então uma nova paleta de seremos tons pastéis