terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Palco, palanque, púlpito ou picadeiro?

   

 Vivemos dias difíceis no cenário político brasileiro, onde muitas figuras são fundidas em um único cargo: o político. Parece que tudo desemboca nos cenário do executivo e do legislativo, com a desculpa de representação de vários setores populares, no fundo se converge em uma única necessidade: poder.
    Não é difícil entender a ineficiência dos órgãos e das ações políticas no Brasil, nossos poderes nunca exercem a sua real função que no caso seria cumprir a necessidade de ser a casa de todos os cidadãos. Casa essa que deveria ouvir e atender as demandas requeridas pelo povo, já que eles acumulam tanta riqueza dos nossos impostos.
    O que vemos hoje são políticos que se comportam como mega astros, verdadeiras celebridades, tendo ares de grandes pessoas, quando no fundo sua simpatia e altruísmo não passam de clichês usados para enfeitiçar usuários da internet.
    Porque na vida real se negam a atender a população, são elitistas no seu pensar, e no fundo escondem verdadeiro nojo do que chama de “pobrada”, nós trabalhadores que os elegemos e pagamos o seu gordo salário.
    Segunda categoria ao Oscar de nossos políticos, os que em ação ou não, eleitos ou não, parecem sempre estar no palanque, com seus discursos apaixonados, sempre jogando para o amanhã grandes ações e feitos, que na verdade nunca fizeram, contando sempre com a ajuda de todos. Falta de consciência de perceber que o povo precisa de ação e não de promessas.

    Agora vamos ao líderes religiosos, nada contra eles ou suas crenças, mas é de doer o que muitos deles fazem, tentativas de criar leis que desrespeitam os princípios da Constituição Federal, usar da figura de pessoa pública para incentivar discriminações e culturas preconceituosas, pregarem quando na verdade deveriam se ocupar em elaborar leis ou executarem ações que realmente garantam o direito a todos de saúde, trabalho, educação, saneamento básico, etc. Se queriam tanto pregar, ficassem em suas igrejas onde poderiam fazer exercício de suas crenças com pregações doutrinárias
    E disso tudo faz a política brasileira um grande picadeiro, onde se parece muito engraçado, um verdadeiro circo, onde o voto é trocado por um emprego, um saco de cimento, uma vingança, uma dentadura, uma licitação fraudulenta para reformar uma capelinha à cal, enfim, não dá para acreditar que algo realmente vá melhorar, como dizem por aí, a teta muda de boca, mas nada de fato é feito.
    O triste mesmo é perceber que neste grande picadeiro os grandes palhaços somos nós trabalhadores financiadores dessa farra dos bois.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Alento


 Um dia tudo passa, só não abro mão de um velho defeito: acreditar em dias melhores para sempre. Minha inocência é o que guardo de mais bonito, embora, muitas vezes, role algumas lágrimas, há de ter um lugar, um alguém que vai me fazer acreditar que eu posso me entregar sem medo e sem culpa.
    Talvez esse dia nunca chegue, mas a esperança eu também não aceito que morra, que me levem o chão, que me decepcionem, que eu veja o pior de muitas pessoas, eu sei que Deus vai cuidar do meu coração para que nunca morra a alma de criança.
    Ainda me encanto com cores, com as formas e fluxo do mundo, hoje um pouco reflexiva, melancólica, temerosa, mas meu Deus curará todas as minhas feridas e o sorriso de sempre vai surgir, eu o ouço e sei que ele me diz: te acalma, para tudo há seu tempo!
    

domingo, 21 de outubro de 2018

A inquilina







   Eu  sempre tive um nó na garganta, sempre tive uma lágrima suspensa, mas também sempre reprimi qualquer negatividade, sempre me coloquei como forte e solução. Talvez um antídoto para a solidão que vive em mim, que me incomoda e que me perturba.
    Entendam a minha solidão é como uma inquilino no meu corpo, um ser estranho que as vezes fala mais alto que eu, um ser que tenho que combater todos os dias para que eu possa sobreviver e ser eu mesma.
    As vezes me canso de brigar com a minha inquilina e me fazer entender aos outros, melhor sorrir mediante a qualquer coisa que aconteça, pedir desculpas, por mim e pela inquilina, afinal na realidade eu que sou a diferente.
    Meus dias, minhas horas são divididas com esse ser, e isso cansa, não tem como eu dar a ninguém isso que existe dentro de mim. Com essa companhia não é difícil mergulhar no meu isolamento , afinal ela está ali, me cansa me fazer entender, sinto que horas sou peso, horas sou cruz, então me deixo a cargo dessa vampira emocional.
    De todas as possibilidades quando ela fala mais alto, a menos exaustiva é viver  à sombra de um suposto passado feliz e me fazer superficial. Porque aprendi na carne e aos gritos dessa inquilina que acreditar faz mal, que qualquer esperança já é feita pra ser quebrada , e ela vai sempre estar ali para escarnecer das minhas derrotas.              Passei a ser descrente, qualquer gota de aceitação é delírio e eu sei que é mais que o suficiente para aliviar aquilo que me transborda.

domingo, 14 de outubro de 2018

A beleza dos contrastes (texto resgatado é de 2014)










    Até  os dias chuvosos tem a sua beleza, como é encantador ver o movimento das muitas formas, cores e molduras das sombrinhas que trazem para um dia cinzento um radiante degradê de cores e efeitos.
    Também nada mais belo que uma manhã cinza e uma cabeça cheia de ideias e um coração transbordando de coragem de fazer melhor que ontem,  de deixar para trás antigos pesos e recomeçar tão leve e fugaz como uma gotícula de sereno, que sabe ser bela apenas junto a tantas outras, formando uma uniformidade tão única,  que só os loucos compreenderão.
    Tanta generosidade num simples  intuito:  se fazer de vida para o desfile de cores, formas e imagens de objetos que só  são significantes como as sombrinhas juntas, porém  conseguem traduzir tanta subjetividade.
    Quantos de nós não nos escondemos debaixo de  urubus, círculos de xadrez tão chinfrins, que é como não quiséssemos viver? Outros já fazem deste pequeno objeto uma janela para seu próprio céu,  carregando sobre si uma imagem, foto que reflete sonhos tão singelos que só o coração humano poderiam esconder. Não podemos esquecer os que se expressam de forma simples,  mas eficaz: em cores, muitas cores, cores diversas que trazem tantas simbologias e analogias podendo esconder na beleza de um vermelho uma dor, na sutileza de um azul um eterno amor ou até mesmo no radiante amarelo a vontade de ousar.
    Dias cinzas são sem graça apenas aos cegos de coração,  aos que tem pressa, aos egoístas que não conseguem admirar a beleza de Deus à todo instante, se fazendo presente na pluralidade de anseios   chamada humanidade

Como morro de amor para tentar reviver?









  Eu não estou me despedindo de você,  apenas estou tirando sua influência tão presente na minha vida. Nada e muito menos alguém vai me tirar o que de precioso você sem querer me ensinou. Isso seria uma carta de amor? Não, por hora colocando apenas as coisas em seu devido lugar.
   O amor é um dos sentimentos mais complexos e por isso contraditório, ao mesmo tempo que mergulhamos nele,  também fugimos dele; para tal sentimento não existe antídoto. O mínimo que podemos fazer é estar atentos porque a condição humana aprisiona tudo que ama, como se fosse uma coleção, não percebendo que tal atitude se distancia do carinho, sendo na realidade um castigo.
   E é exatamente por isso que estou aqui, não dizendo adeus ou te libertando, mas te colocando num lugar mais fácil para ambas as partes. Não posso dizer que não te amo, porque sigo amando, mas de maneira completamente diferente que há tempos atrás.
   É quando o silêncio chega que mais ouço a sua voz. Me perco olhando para o nada, absorta sem pequenas lembranças, que no fundo demonstram o quanto esse lugar que você habita em mim é vazio. Por que na verdade eu estou me apegando de um pouco que foi bom, e é assim que me afundo  em fantasias de muitas facetas do que nunca existiu, o se.
   Alimento esse saudosismo para poder acreditar que tudo valeu a pena, numa necessidade de ver coisas boas e me auto afirmar numa chama que se apagou, embora eu não tenha a certeza de ela realmente existiu um dia.
   Seu cheiro ainda está em mim, porém eu sei é sinto que não há nada meu em você, você se foi sem carregar nada, talvez isso é que realmente me doa. Não me culpo e nem te culpo, mas é conflituoso o modo de entender  até onde vai o querer e o poder.
   Essa vontade, esse apego, esse desejo são sensações e nada mais  é que  momentos de ludicidade adulta. Afinal, brincamos o tempo todo com os nossos reais sentimentos. Fantasiamos para fugir do tédio. Jamais direi que o que aconteceu não tenha seu devido valor, reconheço que foi ilusão,  no entanto,  o que me restou foi o otimismo, afinal foi quase lá.
   Por fim, te digo com ternura: eu não perdi você,  eu ganhei novos significados, porque deixei de lado o orgulho, ganhei um propósito deixando de lado o hábito da ênfase em minha vida do pronome pessoal você, para descobrir que o mundo vai muito além dele. Meu muito obrigada por isso.


quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Os afogados

   A existência de pessoas próximas  diagnosticados com transtornos mentais dos mais variados tem aumentado ; mediante ao clima de desilusão da vida moderna, a sensação de frustração de um padrão inalcançável do que seria o bem sucedido na contemporaneidade , isso sufoca e afoga muitas pessoas de nosso meio de convívio. Ainda falta muita informação sobre como lidar com essa situação tão delicada. Porém, o começo de toda essa situação é exposto neste texto como uma analogia ao afogamento. Nessa análise o doente é como o afogado, a família como o banhista e os profissionais da saúde como os salva-vidas, todos num cenário de um dia cheio de expectativas boas de um perfeito dia de verão numa praia maravilhosa que de um instante para o outro se torna um pesadelo.
    As pessoas entram na água, se refrescam, voltam a areia, conversam, se deliciam tanto do sol quanto do mar. De repente se nota a falta de uma pessoa , percebe-se que ela não volta a areia para se deliciar do sol; avista-se ele na água, mas tomasse como normal. O tempo passa mais um pouco e a pessoa não volta, daí começa-se a perceber que ele não volta não por falta de vontade, e é estranho, porque conseguimos ver que essa pessoa não consegue sair do mar. Depois de um bom tempo de indiferença se entende o risco de afogamento. Alguém por perto se lança ao mar, acreditando mais em si mesmo do que nos fatos para resgatar aquela pessoa numa ação de desespero para salvar e também ser salvo.
   O sinal que as coisas estão fora de um equilíbrio ocorre quando alguém está se afogando . Porém, não é visto como um sintoma de um fato, mas como um caso isolado ou até mesmo consequência de um ato. Como já afirmamos, no desespero de ver alguém se afogando o banhista age pela emoção, não consegue calcular os riscos porque é movido pelos laços afetivos, entra no mar para resolver de imediato uma situação, ou pelo menos tentar resgatar, quem está sendo engolido pelo vasto e desconhecido oceano. 
   Em tais condições, para os dois envolvidos qualquer onda se torna uma imensa corrente em alto mar, mesmo não estando, porque a sensação é de total desconhecimento. Os dois sujeitos nesse cenário se tornam frágeis e entregues a própria sorte, vítimas do instinto individual de sobrevivência.  Sem querer e sem pensar, devido a situação,  o afogado tem a reação de se escorar no outro para emergir e poder respirar, sem imaginar que o outro que está ali para ajudar, será jogado para baixo, ficando sem ar, tanto quanto ele estava porque seu corpo estará embaixo das águas. Logo, não temos apenas um afogado, teremos dois, duelando pela própria sobrevivência, equiparando forças para respirar, perdendo o primeiro sentido: salvarem as suas vidas.
   Também acontece do banhista pedir ao afogado para não se debater, apenas tentar boiar, e economizar suas energias; porque o banhista reconhece os perigos do mar , mas também não entende que aquele afogamento é muito mais significante do que parece, e que para o afogado é uma negação, ele não quer mais ficar a mercê da corrente marítima, pois nela ele sabe que  não existe possibilidade de escolha, se sente perdido e  é uma aposta certeira de azar porque não sabemos onde o mar poderá levar  quem está sem controle e dentro dele. Vale ressaltar que quando o banhista toma essa postura não está sendo egoísta, é uma questão individualista de crença que o tempo resolva situações complexas que fogem de sua alçada, porque crê num tempo e entrega a vida ao mesmo, como se o passar  das  horas fosse uma espera e não uma perda.
   Se alguém perto de você ou você mesmo, estiver se sentindo “afogando”, não pense em outra solução que seja acionar os salva-vidas (psicólogos e psiquiatras), porque eles vão entrar sim no mar, mas com a postura e técnicas de quem conhece essas águas e a situação, te colocarão inicialmente em uma situação de desconforto, devido ao choque de realidade que é sair da zona de conforto de olhar sempre pra frente, nunca percebendo que está dentro de nós ou no nosso redor. Seu rolhar estará voltado pra fora das águas, mas para dentro de si mesmo, assim como se estivesse sendo colocado nas costas de alguém e sem controle tendo apenas o céu como visão estabelecerá uma conexão do eu e com o medo e angústia vividas. Com a segurança que não será suprimido por elas. No entanto, ele te levará até o ponto em que possa ter pé da situação e o trabalho é conjunto, precisamos querer salvar  e nos salvar.
    O afogamento emocional é muito mais que causa e consequência, não é um fato isolado, muito menos distante da realidade humana, já dito: é um sintoma. Se arriscar a salvar o outro ou tentar por si mesmo é insensatez . É preciso técnica e conhecimento de causa, e não desespero. Chamar um salva-vidas não é terceirizar responsabilidades, ao contrário, é um ato de coragem e busca de auto conhecimento para saber lidar com as ondas e correntes da vida.

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

A paleta de cores



   
   Em um universo paralelo que é o borderline, as emoções são uma paleta de cores radiantes e purpurinadas. Afinal, vivemos nos extremos, saltando de uma cor a outra em curtos espaço de tempo. É como se vivêssemos sempre em busca de sensações que nos tirem do estado de tédio. Um vermelho simples não basta, é necessário um vermelho carmim. Por quê um amarelo? Sem graça, preferimos uma amarela gema de ovo.
   E nesses voos entre o azul royal, rosa pink, verde limão, nos jogamos na intensidade do melhor e do pior, como se essas cores radiantes e cheias de purpurina nos protegesse e fosse nos completar do abismo cinza que existe dentro de nós. Não conseguimos ver graça nas paletas alheias, por quê o lilás, se existe o roxo que é mais forte? Qual a alegria tem a cor branca? Cadê a vida? Ela está passando!
   Então, eis que surge o fatídico diagnóstico.  Com a entrada das medicações, o trabalho terapêutico de se auto conhecer, o complexo esforço de nós entender borderline,  percebemos que as cores radiantes e cheias de purpurina eram apenas falsas sensações, fruto da nossa necessidade de intensidade. Existe um estranhamento nesse processo porque o caminho agora é de ressignificar essas cores, compreendendo que as cores não podem ser as mesmas. O enfrentamento do cinza é algo avassalador, mesmo porque vivíamos fugindo dele; e de um momento para o outro as coisas que mais temidas se concretizam: meu mundo é cinza!
   Somos purpurina, e não nos damos conta, a purpurina só é  vista  brilhando, logo só existe na luz, no escuro ela não representa nada. E  assim é borderline, procura a luz para se sentir vivo pelo olhar e atenção do outro. Por isso tanta cor e tanto brilho, tentativas vãs de sobreviver. Com o tratamento nós começamos a perceber nosso esforço frenético de ser uma paleta radiante, seja nos momentos de fúria ou euforia, apenas estamos tentando sobreviver, buscando ser notado, só que há um desgaste emocional (quase físico) nesse mecanismo, com um preço alto a pagar e todo um histórico de sensações a ser trabalhado.
   Passado o momento de desespero e devido ao estranhamento de enfrentar o mundo cinza, enfrentando a intensidade das emoções,  aqui feito uma analogia a cores radiantes, começa o processo de mudar os tons, rever a necessidade da intensidade e o porquê de tanto esforço. Os tons em nossa paleta vão ficando mais brandos, porque o desgaste emocional é menor a medida que nos apresentamos a nós mesmos.       Percebemos que os tão sem graça tons pastéis significa equilibrar os efeitos do outro em nós como os nossos efeitos aos outros, os intensos demanda muita energia. E a vida vai ficando mais leve, a ponto de um dia percebermos que sobrevivemos vítimas do medo de nossa mente cinza. Que as cores intensos eram fugas, logo viver não é fugir, é apenas viver. Construindo então uma nova paleta de seremos tons pastéis

sábado, 23 de junho de 2018

O Abismo

   


   Na vida de uma pessoa com o transtorno de personalidade borderline os parâmetros e conceitos existenciais se distanciam da realidade das pessoas que o cercam, o que causa um imenso estranhamento do querer e um conflito de interesses, ocasionando o agravamento da sensação de abandono e vazio, pois o mesmo o é e se faz não entendido, porque não se dá conta do que busca e como se coloca aos outros. Quando se trata de um borderline é vital entender que sua zona de ’conforto’ dele é diferente, porque o seu prazer está na fossa, na contemplação de um abismo.
            Digamos que estamos caminhando a uma direção, qualquer pessoa que saiba que no caminho que segue existe um abismo logo adiante, retoma um caminho de volta ou refaz sua trajetória para outros horizontes. O sujeito com borderline não, ele vai de encontro a esse abismo, como um fenômeno de magnetismo. Ele é atraído pelo abismo e o contempla, como se ali estivesse seu lugar comum, um verdadeiro culto a tudo que é obscuro, sombrio; ele fatalmente se identifica com a melancolia de um buraco que não parece ter fundo, onde não se sabe o que existe dentro dele.
            É como se a sensação de mal-estar que existe nele encontrasse um meio e função. Neste local de abismo se faz de forma inconsciente, porém com muita necessidade um culto a dor. O abismo é um estado, uma fase da vida de qualquer borderline, onde ele usa um lugar, uma personagem, uma personalidade para vivenciar de forma irracional o verdadeiro abismo que há dentro dele mesmo. Uma fossa onde não se enxerga o que existe, mas é obvio que só oferece perigo, que claramente nos dá a sensação vaga de completude. Nessa admiração mórbida pela tristeza o borderline pode a vir a pular dentro do seu próprio abismo, fazendo de sua vida um caos.
            Sempre tive uma relação de fascínio com a morte, hoje me sinto livre em poder contar o que tinha dentro de mim, lembro que quando criança eu vivi a morte da Lady Diana como se ela me fosse um ser da minha realidade, Ayrton Senna era um quase amigo meu, pós morte, porque vivo não me fazia sentindo nenhum a história de um campeão. Daí vieram as figuras que me atraiam ao que hoje eu sei que era a reprodução de tudo o que tinha dentro de mim, como por exemplo Marilyn Monroe, ela era no fundo triste demais para chorar, seu sorriso, penso eu, era uma forma de violência a ela mesma, era uma resistência a sua dor. Maysa, nossa, essa era meu alter ego, eu vivi Maysa, respirei Maysa, por um bom tempo, me apropriei com paixão a toda dor que eu suponho que ela tivesse, porque me via nela: ” e eu assim tão só, e eu preciso aprender a ser só...”
            É estranho pensar que uma pessoa não se preencha, que enxergue dentro de si tão somente um abismo, que mesmo pertencente a ele mesmo, ele o desconheça. Nessa relação com o abismo a vida de um borderline se torna uma ode a sarjeta. Ele alimenta o prazer no desconforto, cria hábitos mais variados de mal viver. O encontro com esse abismo é o começo de uma trajetória de externar toda a dor que existe dentro dele. O abismo para mim tem seu hino, ‘Teatro dos vampiros’ do Renato Russo:
“Sempre precisei de um pouco de atenção,
Acho que não sei quem sou, só sei do que não gosto
E destes dias tão estranhos
Fica poeira se escondendo pelos cantos
Esse é o nosso mundo
O que é demais nunca é o bastante
E a primeira vez é sempre a última chance [...]”
            Sim, o mundo de um borderline sem tratamento e compreensão é triste e solitário, ele não se esconde atrás da dor, ele faz da dor sua maneira de viver. O sujeito se acaba em si mesmo, e isso reflete na relação com o outro. Se ele resolve beber, para ele não basta estar bêbado, ele tem que ir além, ele se entrega a dor e quer se personificar a embriaguez; esse tipo de compulsão pode ser caracterizado das mais variadas formas. Nesta fase abismo ele sabe o quanto é inconveniente, o quanto fere, mas não consegue parar, porque ao ser detestável ele está na verdade sinalizando ajuda, o que não significa que ele queira.
            Numa fase da minha vida eu sai da obesidade e fui parar na anorexia, eu sabia que estava feia, eu sabia o quanto minha imagem chocava as pessoas, eu tinha consciência que era uma violência a mim, mas a necessidade de mostrar o quanto eu queria estar morta estava sendo escrita no meu corpo através de cada osso que sobressaltava em mim. Sem querer eu estava ali gritando, não com voz, mas com atitudes que estava morta, porque era exatamente assim que eu me via, morta, sem nenhuma função.
         Tudo que simbolize a dor em excesso que o borderline sente se torna uma rotina num jogo de roleta russa, onde o border se expõe, se dilacera, se opõe a todos, porque não consegue compreender que o que ele procura, ele mesmo não oferece, e o que ele oferece é estranho aos olhos alheios. Por um bom tempo eu vivia na bebida o que estava dentro de mim: ódio, conflito. Eu já bebia para oferecer ao mundo o que eu queria, dor física, me enchia de coragem para poder partir para cima de pessoas das quais eu amo, das quais eu tinha menos força e poderia me machucar, mas era o que eu realmente queria: me machucar.

            Neste estado é quase impossível os que te cercam entender que é uma patologia, que é um modo errante de pedir ajuda, porque a sarjeta dá ao borderline a sensação de verdade, afinal é a legitimação de tudo que ele sente,  a vida dele é apenas dor, um grande abismo onde tudo o que ele não entende, onde tudo que ele não sabe lidar, tudo que vivenciou é jogado naquele lugar simbólico que é o sofrimento e o vazio de não se entender, porém embora todo borderline seja resiliente na dor, esse abismo acaba refletindo ao mundo o que o sujeito borderline é, mas tenta incessantemente fugir.

No Mundo 'In'



   
É muito difícil compreender o transtorno de personalidade borderline, embora seus portadores sejam tão caricatos. O caminho até o diagnóstico é muito sofrido e pior, quando descoberto o transtorno, vem o medo do fato de não haver cura, o que daí pode se tornar uma frustração. E é nesse momento que o próprio paciente e as pessoas que os rodeiam intimamente precisam parar e questionar (leia-se QUESTIONAR que é buscar entender e não criticar) os comportamentos, as figuras e os papéis que cada um contribui para essa história, o que já adianto: não existem culpados, existem contribuições. 
       Sem compromissos com dados e estudos, mas com total conhecimento empírico da situação, horas vou falar na primeira pessoa, horas vou falar na terceira pessoa, quero apenas me fazer entender como sou, isso não significa que quero aceitação, explicando a vida do borderline tal qual ele se vê, tal qual me vejo, tal qual vivi até aqui, pois depois do diagnóstico muitas coisas começam a ter seu real significado.
Esses escritos são apenas as impressões de uma borderline mediante ao desconhecido, o mundo real. Uma tentativa de tornar mais acessível o que é o transtorno de borderline, seja através de analogias ou relatos, uma realidade paralela onde as emoções falam mais alto que qualquer circunstância. Sim, vivemos de emoções, a vida nos proporciona sensações muito mais intensas, antes de conscientização e de tratamento adequado, que qualquer condição de bom senso possa entender, seja de maneira positiva ou não, marcamos e somos marcados em todos os tipos de relações.
    Não tenho aspiração nenhuma com esse trabalho, que mais seria um desabafo, porque não tenho soluções e não pretendo criar um manual do bem viver, porque se tratando de qualquer transtorno de ordem mental, as características gerais se convergem, mas na prática divergem, cada portador carrega além do transtorno, toda subjetividade que os diferencia dos outros, mesmo com aspectos semelhantes. Ter o transtorno não tem correlação a um roteiro único de ação e reação. Ser diagnosticado com esse transtorno não é receber a sentença de morte ou de frustração, é uma pausa de uma trajetória de muita pressa e sem nenhuma direção, a uma incessante busca de entendimento do ser, um mergulho dentro do seu grande desconhecido: a si mesmo.
É importante compreender que ao falar em Transtorno de personalidade Borderline, estamos falando de indivíduos com emoções intensas e reativas, reflexo não apenas a uma situação em especifico de vivencia no presente, mas de toda uma história escrita no inconsciente no alfabeto bilíngue de bom e ruim, num roteiro caracterizado pelo abandono, abuso, negligencia que alimenta uma realidade de vergonha, medo e o vazio. É através desse espectro que a personalidade borderline se forma, levando o indivíduo sempre a uma leitura “errônea” socialmente dizendo, de mundo, caracterizada por atitudes inesperadas, insuportáveis, incríveis, instáveis, intensas, inesquecíveis ... bem-vindo ao mundo ‘IN’.

sábado, 24 de março de 2018

Do que eles estão rindo?



As redes sociais deram protagonismo a uma gente que conhecíamos, mas até então não levávamos a sério: os cruéis.  Quem não conhece alguém que sempre tem uma versão escusa de uma fato onde só ele sabe a fonte? Quem não conhece alguém que consegue fazer os piores comentários mesmo nas situação mais infelizes em nome da brincadeira? Os famosos intragáveis, gente que tratamos com o máximo de cordialidade e diplomacia porque justamente não queremos tenham a liberdade de falar o que pensam conosco, por serem chatos.
Sim, são essas pessoas que andam movimentando a internet. Aquelas mesmas que na vida a gente evita qualquer assunto sério, por ter consciência que são completos idiotas, no sentido visceral da palavra. Pessoas que julgamos até inocentes mediante a tanta ignorância, mas que num ambiente virtual encontra proteção para todo seu sadismo. E é ali que colocam pra fora toda sua frustração em forma de ódio, intolerância, perversidade e ironia. Nem que pra isso tenham que ignorar a verdade, a dignidade humana e as leis. Compartilham notáveis mentiras, reagem com risadas a tragédias, atacam seus iguais como deuses, questionam o inquestionável.
O que paira no ar é: em nome de que? Qual o limite dessas pessoas? Não vivem no mesmo mundo que a gente?  A internet pra essa escória virou um Olimpo onde o Google é a fonte de pesquisa, abastecida de verdades por eles mesmos, para dar razão à toda e qualquer histeria coletiva. Discursos prontos, conversas enfadonhas, debates altamente polarizados, argumentos sem fundamentos.
 Medo dessa gente que se diz de bem, porém só consegue pensar em morte e linchamento de todo aquilo que lhe é diferente. Saudades do tempo que essa galera se limitava as saudações de bom dia, boa tarde e boa noite, porque suas atuais colocações não estão somando à coletividade, apenas mostram a pior faceta da humanidade:  a crueldade.