A existência de pessoas próximas diagnosticados com transtornos mentais dos mais variados tem aumentado ; mediante ao clima de desilusão da vida moderna, a sensação de frustração de um padrão inalcançável do que seria o bem sucedido na contemporaneidade , isso sufoca e afoga muitas pessoas de nosso meio de convívio. Ainda falta muita informação sobre como lidar com essa situação tão delicada. Porém, o começo de toda essa situação é exposto neste texto como uma analogia ao afogamento. Nessa análise o doente é como o afogado, a família como o banhista e os profissionais da saúde como os salva-vidas, todos num cenário de um dia cheio de expectativas boas de um perfeito dia de verão numa praia maravilhosa que de um instante para o outro se torna um pesadelo.
As pessoas entram na água, se refrescam, voltam a areia, conversam, se deliciam tanto do sol quanto do mar. De repente se nota a falta de uma pessoa , percebe-se que ela não volta a areia para se deliciar do sol; avista-se ele na água, mas tomasse como normal. O tempo passa mais um pouco e a pessoa não volta, daí começa-se a perceber que ele não volta não por falta de vontade, e é estranho, porque conseguimos ver que essa pessoa não consegue sair do mar. Depois de um bom tempo de indiferença se entende o risco de afogamento. Alguém por perto se lança ao mar, acreditando mais em si mesmo do que nos fatos para resgatar aquela pessoa numa ação de desespero para salvar e também ser salvo.
O sinal que as coisas estão fora de um equilíbrio ocorre quando alguém está se afogando . Porém, não é visto como um sintoma de um fato, mas como um caso isolado ou até mesmo consequência de um ato. Como já afirmamos, no desespero de ver alguém se afogando o banhista age pela emoção, não consegue calcular os riscos porque é movido pelos laços afetivos, entra no mar para resolver de imediato uma situação, ou pelo menos tentar resgatar, quem está sendo engolido pelo vasto e desconhecido oceano.
Em tais condições, para os dois envolvidos qualquer onda se torna uma imensa corrente em alto mar, mesmo não estando, porque a sensação é de total desconhecimento. Os dois sujeitos nesse cenário se tornam frágeis e entregues a própria sorte, vítimas do instinto individual de sobrevivência. Sem querer e sem pensar, devido a situação, o afogado tem a reação de se escorar no outro para emergir e poder respirar, sem imaginar que o outro que está ali para ajudar, será jogado para baixo, ficando sem ar, tanto quanto ele estava porque seu corpo estará embaixo das águas. Logo, não temos apenas um afogado, teremos dois, duelando pela própria sobrevivência, equiparando forças para respirar, perdendo o primeiro sentido: salvarem as suas vidas.
Também acontece do banhista pedir ao afogado para não se debater, apenas tentar boiar, e economizar suas energias; porque o banhista reconhece os perigos do mar , mas também não entende que aquele afogamento é muito mais significante do que parece, e que para o afogado é uma negação, ele não quer mais ficar a mercê da corrente marítima, pois nela ele sabe que não existe possibilidade de escolha, se sente perdido e é uma aposta certeira de azar porque não sabemos onde o mar poderá levar quem está sem controle e dentro dele. Vale ressaltar que quando o banhista toma essa postura não está sendo egoísta, é uma questão individualista de crença que o tempo resolva situações complexas que fogem de sua alçada, porque crê num tempo e entrega a vida ao mesmo, como se o passar das horas fosse uma espera e não uma perda.
Se alguém perto de você ou você mesmo, estiver se sentindo “afogando”, não pense em outra solução que seja acionar os salva-vidas (psicólogos e psiquiatras), porque eles vão entrar sim no mar, mas com a postura e técnicas de quem conhece essas águas e a situação, te colocarão inicialmente em uma situação de desconforto, devido ao choque de realidade que é sair da zona de conforto de olhar sempre pra frente, nunca percebendo que está dentro de nós ou no nosso redor. Seu rolhar estará voltado pra fora das águas, mas para dentro de si mesmo, assim como se estivesse sendo colocado nas costas de alguém e sem controle tendo apenas o céu como visão estabelecerá uma conexão do eu e com o medo e angústia vividas. Com a segurança que não será suprimido por elas. No entanto, ele te levará até o ponto em que possa ter pé da situação e o trabalho é conjunto, precisamos querer salvar e nos salvar.
O afogamento emocional é muito mais que causa e consequência, não é um fato isolado, muito menos distante da realidade humana, já dito: é um sintoma. Se arriscar a salvar o outro ou tentar por si mesmo é insensatez . É preciso técnica e conhecimento de causa, e não desespero. Chamar um salva-vidas não é terceirizar responsabilidades, ao contrário, é um ato de coragem e busca de auto conhecimento para saber lidar com as ondas e correntes da vida.