domingo, 21 de outubro de 2018

A inquilina







   Eu  sempre tive um nó na garganta, sempre tive uma lágrima suspensa, mas também sempre reprimi qualquer negatividade, sempre me coloquei como forte e solução. Talvez um antídoto para a solidão que vive em mim, que me incomoda e que me perturba.
    Entendam a minha solidão é como uma inquilino no meu corpo, um ser estranho que as vezes fala mais alto que eu, um ser que tenho que combater todos os dias para que eu possa sobreviver e ser eu mesma.
    As vezes me canso de brigar com a minha inquilina e me fazer entender aos outros, melhor sorrir mediante a qualquer coisa que aconteça, pedir desculpas, por mim e pela inquilina, afinal na realidade eu que sou a diferente.
    Meus dias, minhas horas são divididas com esse ser, e isso cansa, não tem como eu dar a ninguém isso que existe dentro de mim. Com essa companhia não é difícil mergulhar no meu isolamento , afinal ela está ali, me cansa me fazer entender, sinto que horas sou peso, horas sou cruz, então me deixo a cargo dessa vampira emocional.
    De todas as possibilidades quando ela fala mais alto, a menos exaustiva é viver  à sombra de um suposto passado feliz e me fazer superficial. Porque aprendi na carne e aos gritos dessa inquilina que acreditar faz mal, que qualquer esperança já é feita pra ser quebrada , e ela vai sempre estar ali para escarnecer das minhas derrotas.              Passei a ser descrente, qualquer gota de aceitação é delírio e eu sei que é mais que o suficiente para aliviar aquilo que me transborda.

domingo, 14 de outubro de 2018

A beleza dos contrastes (texto resgatado é de 2014)










    Até  os dias chuvosos tem a sua beleza, como é encantador ver o movimento das muitas formas, cores e molduras das sombrinhas que trazem para um dia cinzento um radiante degradê de cores e efeitos.
    Também nada mais belo que uma manhã cinza e uma cabeça cheia de ideias e um coração transbordando de coragem de fazer melhor que ontem,  de deixar para trás antigos pesos e recomeçar tão leve e fugaz como uma gotícula de sereno, que sabe ser bela apenas junto a tantas outras, formando uma uniformidade tão única,  que só os loucos compreenderão.
    Tanta generosidade num simples  intuito:  se fazer de vida para o desfile de cores, formas e imagens de objetos que só  são significantes como as sombrinhas juntas, porém  conseguem traduzir tanta subjetividade.
    Quantos de nós não nos escondemos debaixo de  urubus, círculos de xadrez tão chinfrins, que é como não quiséssemos viver? Outros já fazem deste pequeno objeto uma janela para seu próprio céu,  carregando sobre si uma imagem, foto que reflete sonhos tão singelos que só o coração humano poderiam esconder. Não podemos esquecer os que se expressam de forma simples,  mas eficaz: em cores, muitas cores, cores diversas que trazem tantas simbologias e analogias podendo esconder na beleza de um vermelho uma dor, na sutileza de um azul um eterno amor ou até mesmo no radiante amarelo a vontade de ousar.
    Dias cinzas são sem graça apenas aos cegos de coração,  aos que tem pressa, aos egoístas que não conseguem admirar a beleza de Deus à todo instante, se fazendo presente na pluralidade de anseios   chamada humanidade

Como morro de amor para tentar reviver?









  Eu não estou me despedindo de você,  apenas estou tirando sua influência tão presente na minha vida. Nada e muito menos alguém vai me tirar o que de precioso você sem querer me ensinou. Isso seria uma carta de amor? Não, por hora colocando apenas as coisas em seu devido lugar.
   O amor é um dos sentimentos mais complexos e por isso contraditório, ao mesmo tempo que mergulhamos nele,  também fugimos dele; para tal sentimento não existe antídoto. O mínimo que podemos fazer é estar atentos porque a condição humana aprisiona tudo que ama, como se fosse uma coleção, não percebendo que tal atitude se distancia do carinho, sendo na realidade um castigo.
   E é exatamente por isso que estou aqui, não dizendo adeus ou te libertando, mas te colocando num lugar mais fácil para ambas as partes. Não posso dizer que não te amo, porque sigo amando, mas de maneira completamente diferente que há tempos atrás.
   É quando o silêncio chega que mais ouço a sua voz. Me perco olhando para o nada, absorta sem pequenas lembranças, que no fundo demonstram o quanto esse lugar que você habita em mim é vazio. Por que na verdade eu estou me apegando de um pouco que foi bom, e é assim que me afundo  em fantasias de muitas facetas do que nunca existiu, o se.
   Alimento esse saudosismo para poder acreditar que tudo valeu a pena, numa necessidade de ver coisas boas e me auto afirmar numa chama que se apagou, embora eu não tenha a certeza de ela realmente existiu um dia.
   Seu cheiro ainda está em mim, porém eu sei é sinto que não há nada meu em você, você se foi sem carregar nada, talvez isso é que realmente me doa. Não me culpo e nem te culpo, mas é conflituoso o modo de entender  até onde vai o querer e o poder.
   Essa vontade, esse apego, esse desejo são sensações e nada mais  é que  momentos de ludicidade adulta. Afinal, brincamos o tempo todo com os nossos reais sentimentos. Fantasiamos para fugir do tédio. Jamais direi que o que aconteceu não tenha seu devido valor, reconheço que foi ilusão,  no entanto,  o que me restou foi o otimismo, afinal foi quase lá.
   Por fim, te digo com ternura: eu não perdi você,  eu ganhei novos significados, porque deixei de lado o orgulho, ganhei um propósito deixando de lado o hábito da ênfase em minha vida do pronome pessoal você, para descobrir que o mundo vai muito além dele. Meu muito obrigada por isso.


quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Os afogados

   A existência de pessoas próximas  diagnosticados com transtornos mentais dos mais variados tem aumentado ; mediante ao clima de desilusão da vida moderna, a sensação de frustração de um padrão inalcançável do que seria o bem sucedido na contemporaneidade , isso sufoca e afoga muitas pessoas de nosso meio de convívio. Ainda falta muita informação sobre como lidar com essa situação tão delicada. Porém, o começo de toda essa situação é exposto neste texto como uma analogia ao afogamento. Nessa análise o doente é como o afogado, a família como o banhista e os profissionais da saúde como os salva-vidas, todos num cenário de um dia cheio de expectativas boas de um perfeito dia de verão numa praia maravilhosa que de um instante para o outro se torna um pesadelo.
    As pessoas entram na água, se refrescam, voltam a areia, conversam, se deliciam tanto do sol quanto do mar. De repente se nota a falta de uma pessoa , percebe-se que ela não volta a areia para se deliciar do sol; avista-se ele na água, mas tomasse como normal. O tempo passa mais um pouco e a pessoa não volta, daí começa-se a perceber que ele não volta não por falta de vontade, e é estranho, porque conseguimos ver que essa pessoa não consegue sair do mar. Depois de um bom tempo de indiferença se entende o risco de afogamento. Alguém por perto se lança ao mar, acreditando mais em si mesmo do que nos fatos para resgatar aquela pessoa numa ação de desespero para salvar e também ser salvo.
   O sinal que as coisas estão fora de um equilíbrio ocorre quando alguém está se afogando . Porém, não é visto como um sintoma de um fato, mas como um caso isolado ou até mesmo consequência de um ato. Como já afirmamos, no desespero de ver alguém se afogando o banhista age pela emoção, não consegue calcular os riscos porque é movido pelos laços afetivos, entra no mar para resolver de imediato uma situação, ou pelo menos tentar resgatar, quem está sendo engolido pelo vasto e desconhecido oceano. 
   Em tais condições, para os dois envolvidos qualquer onda se torna uma imensa corrente em alto mar, mesmo não estando, porque a sensação é de total desconhecimento. Os dois sujeitos nesse cenário se tornam frágeis e entregues a própria sorte, vítimas do instinto individual de sobrevivência.  Sem querer e sem pensar, devido a situação,  o afogado tem a reação de se escorar no outro para emergir e poder respirar, sem imaginar que o outro que está ali para ajudar, será jogado para baixo, ficando sem ar, tanto quanto ele estava porque seu corpo estará embaixo das águas. Logo, não temos apenas um afogado, teremos dois, duelando pela própria sobrevivência, equiparando forças para respirar, perdendo o primeiro sentido: salvarem as suas vidas.
   Também acontece do banhista pedir ao afogado para não se debater, apenas tentar boiar, e economizar suas energias; porque o banhista reconhece os perigos do mar , mas também não entende que aquele afogamento é muito mais significante do que parece, e que para o afogado é uma negação, ele não quer mais ficar a mercê da corrente marítima, pois nela ele sabe que  não existe possibilidade de escolha, se sente perdido e  é uma aposta certeira de azar porque não sabemos onde o mar poderá levar  quem está sem controle e dentro dele. Vale ressaltar que quando o banhista toma essa postura não está sendo egoísta, é uma questão individualista de crença que o tempo resolva situações complexas que fogem de sua alçada, porque crê num tempo e entrega a vida ao mesmo, como se o passar  das  horas fosse uma espera e não uma perda.
   Se alguém perto de você ou você mesmo, estiver se sentindo “afogando”, não pense em outra solução que seja acionar os salva-vidas (psicólogos e psiquiatras), porque eles vão entrar sim no mar, mas com a postura e técnicas de quem conhece essas águas e a situação, te colocarão inicialmente em uma situação de desconforto, devido ao choque de realidade que é sair da zona de conforto de olhar sempre pra frente, nunca percebendo que está dentro de nós ou no nosso redor. Seu rolhar estará voltado pra fora das águas, mas para dentro de si mesmo, assim como se estivesse sendo colocado nas costas de alguém e sem controle tendo apenas o céu como visão estabelecerá uma conexão do eu e com o medo e angústia vividas. Com a segurança que não será suprimido por elas. No entanto, ele te levará até o ponto em que possa ter pé da situação e o trabalho é conjunto, precisamos querer salvar  e nos salvar.
    O afogamento emocional é muito mais que causa e consequência, não é um fato isolado, muito menos distante da realidade humana, já dito: é um sintoma. Se arriscar a salvar o outro ou tentar por si mesmo é insensatez . É preciso técnica e conhecimento de causa, e não desespero. Chamar um salva-vidas não é terceirizar responsabilidades, ao contrário, é um ato de coragem e busca de auto conhecimento para saber lidar com as ondas e correntes da vida.