sábado, 23 de junho de 2018

O Abismo

   


   Na vida de uma pessoa com o transtorno de personalidade borderline os parâmetros e conceitos existenciais se distanciam da realidade das pessoas que o cercam, o que causa um imenso estranhamento do querer e um conflito de interesses, ocasionando o agravamento da sensação de abandono e vazio, pois o mesmo o é e se faz não entendido, porque não se dá conta do que busca e como se coloca aos outros. Quando se trata de um borderline é vital entender que sua zona de ’conforto’ dele é diferente, porque o seu prazer está na fossa, na contemplação de um abismo.
            Digamos que estamos caminhando a uma direção, qualquer pessoa que saiba que no caminho que segue existe um abismo logo adiante, retoma um caminho de volta ou refaz sua trajetória para outros horizontes. O sujeito com borderline não, ele vai de encontro a esse abismo, como um fenômeno de magnetismo. Ele é atraído pelo abismo e o contempla, como se ali estivesse seu lugar comum, um verdadeiro culto a tudo que é obscuro, sombrio; ele fatalmente se identifica com a melancolia de um buraco que não parece ter fundo, onde não se sabe o que existe dentro dele.
            É como se a sensação de mal-estar que existe nele encontrasse um meio e função. Neste local de abismo se faz de forma inconsciente, porém com muita necessidade um culto a dor. O abismo é um estado, uma fase da vida de qualquer borderline, onde ele usa um lugar, uma personagem, uma personalidade para vivenciar de forma irracional o verdadeiro abismo que há dentro dele mesmo. Uma fossa onde não se enxerga o que existe, mas é obvio que só oferece perigo, que claramente nos dá a sensação vaga de completude. Nessa admiração mórbida pela tristeza o borderline pode a vir a pular dentro do seu próprio abismo, fazendo de sua vida um caos.
            Sempre tive uma relação de fascínio com a morte, hoje me sinto livre em poder contar o que tinha dentro de mim, lembro que quando criança eu vivi a morte da Lady Diana como se ela me fosse um ser da minha realidade, Ayrton Senna era um quase amigo meu, pós morte, porque vivo não me fazia sentindo nenhum a história de um campeão. Daí vieram as figuras que me atraiam ao que hoje eu sei que era a reprodução de tudo o que tinha dentro de mim, como por exemplo Marilyn Monroe, ela era no fundo triste demais para chorar, seu sorriso, penso eu, era uma forma de violência a ela mesma, era uma resistência a sua dor. Maysa, nossa, essa era meu alter ego, eu vivi Maysa, respirei Maysa, por um bom tempo, me apropriei com paixão a toda dor que eu suponho que ela tivesse, porque me via nela: ” e eu assim tão só, e eu preciso aprender a ser só...”
            É estranho pensar que uma pessoa não se preencha, que enxergue dentro de si tão somente um abismo, que mesmo pertencente a ele mesmo, ele o desconheça. Nessa relação com o abismo a vida de um borderline se torna uma ode a sarjeta. Ele alimenta o prazer no desconforto, cria hábitos mais variados de mal viver. O encontro com esse abismo é o começo de uma trajetória de externar toda a dor que existe dentro dele. O abismo para mim tem seu hino, ‘Teatro dos vampiros’ do Renato Russo:
“Sempre precisei de um pouco de atenção,
Acho que não sei quem sou, só sei do que não gosto
E destes dias tão estranhos
Fica poeira se escondendo pelos cantos
Esse é o nosso mundo
O que é demais nunca é o bastante
E a primeira vez é sempre a última chance [...]”
            Sim, o mundo de um borderline sem tratamento e compreensão é triste e solitário, ele não se esconde atrás da dor, ele faz da dor sua maneira de viver. O sujeito se acaba em si mesmo, e isso reflete na relação com o outro. Se ele resolve beber, para ele não basta estar bêbado, ele tem que ir além, ele se entrega a dor e quer se personificar a embriaguez; esse tipo de compulsão pode ser caracterizado das mais variadas formas. Nesta fase abismo ele sabe o quanto é inconveniente, o quanto fere, mas não consegue parar, porque ao ser detestável ele está na verdade sinalizando ajuda, o que não significa que ele queira.
            Numa fase da minha vida eu sai da obesidade e fui parar na anorexia, eu sabia que estava feia, eu sabia o quanto minha imagem chocava as pessoas, eu tinha consciência que era uma violência a mim, mas a necessidade de mostrar o quanto eu queria estar morta estava sendo escrita no meu corpo através de cada osso que sobressaltava em mim. Sem querer eu estava ali gritando, não com voz, mas com atitudes que estava morta, porque era exatamente assim que eu me via, morta, sem nenhuma função.
         Tudo que simbolize a dor em excesso que o borderline sente se torna uma rotina num jogo de roleta russa, onde o border se expõe, se dilacera, se opõe a todos, porque não consegue compreender que o que ele procura, ele mesmo não oferece, e o que ele oferece é estranho aos olhos alheios. Por um bom tempo eu vivia na bebida o que estava dentro de mim: ódio, conflito. Eu já bebia para oferecer ao mundo o que eu queria, dor física, me enchia de coragem para poder partir para cima de pessoas das quais eu amo, das quais eu tinha menos força e poderia me machucar, mas era o que eu realmente queria: me machucar.

            Neste estado é quase impossível os que te cercam entender que é uma patologia, que é um modo errante de pedir ajuda, porque a sarjeta dá ao borderline a sensação de verdade, afinal é a legitimação de tudo que ele sente,  a vida dele é apenas dor, um grande abismo onde tudo o que ele não entende, onde tudo que ele não sabe lidar, tudo que vivenciou é jogado naquele lugar simbólico que é o sofrimento e o vazio de não se entender, porém embora todo borderline seja resiliente na dor, esse abismo acaba refletindo ao mundo o que o sujeito borderline é, mas tenta incessantemente fugir.

No Mundo 'In'



   
É muito difícil compreender o transtorno de personalidade borderline, embora seus portadores sejam tão caricatos. O caminho até o diagnóstico é muito sofrido e pior, quando descoberto o transtorno, vem o medo do fato de não haver cura, o que daí pode se tornar uma frustração. E é nesse momento que o próprio paciente e as pessoas que os rodeiam intimamente precisam parar e questionar (leia-se QUESTIONAR que é buscar entender e não criticar) os comportamentos, as figuras e os papéis que cada um contribui para essa história, o que já adianto: não existem culpados, existem contribuições. 
       Sem compromissos com dados e estudos, mas com total conhecimento empírico da situação, horas vou falar na primeira pessoa, horas vou falar na terceira pessoa, quero apenas me fazer entender como sou, isso não significa que quero aceitação, explicando a vida do borderline tal qual ele se vê, tal qual me vejo, tal qual vivi até aqui, pois depois do diagnóstico muitas coisas começam a ter seu real significado.
Esses escritos são apenas as impressões de uma borderline mediante ao desconhecido, o mundo real. Uma tentativa de tornar mais acessível o que é o transtorno de borderline, seja através de analogias ou relatos, uma realidade paralela onde as emoções falam mais alto que qualquer circunstância. Sim, vivemos de emoções, a vida nos proporciona sensações muito mais intensas, antes de conscientização e de tratamento adequado, que qualquer condição de bom senso possa entender, seja de maneira positiva ou não, marcamos e somos marcados em todos os tipos de relações.
    Não tenho aspiração nenhuma com esse trabalho, que mais seria um desabafo, porque não tenho soluções e não pretendo criar um manual do bem viver, porque se tratando de qualquer transtorno de ordem mental, as características gerais se convergem, mas na prática divergem, cada portador carrega além do transtorno, toda subjetividade que os diferencia dos outros, mesmo com aspectos semelhantes. Ter o transtorno não tem correlação a um roteiro único de ação e reação. Ser diagnosticado com esse transtorno não é receber a sentença de morte ou de frustração, é uma pausa de uma trajetória de muita pressa e sem nenhuma direção, a uma incessante busca de entendimento do ser, um mergulho dentro do seu grande desconhecido: a si mesmo.
É importante compreender que ao falar em Transtorno de personalidade Borderline, estamos falando de indivíduos com emoções intensas e reativas, reflexo não apenas a uma situação em especifico de vivencia no presente, mas de toda uma história escrita no inconsciente no alfabeto bilíngue de bom e ruim, num roteiro caracterizado pelo abandono, abuso, negligencia que alimenta uma realidade de vergonha, medo e o vazio. É através desse espectro que a personalidade borderline se forma, levando o indivíduo sempre a uma leitura “errônea” socialmente dizendo, de mundo, caracterizada por atitudes inesperadas, insuportáveis, incríveis, instáveis, intensas, inesquecíveis ... bem-vindo ao mundo ‘IN’.