Na vida de uma pessoa com o transtorno de personalidade borderline os parâmetros e conceitos existenciais se distanciam da realidade das pessoas que o cercam, o que causa um imenso estranhamento do querer e um conflito de interesses, ocasionando o agravamento da sensação de abandono e vazio, pois o mesmo o é e se faz não entendido, porque não se dá conta do que busca e como se coloca aos outros. Quando se trata de um borderline é vital entender que sua zona de ’conforto’ dele é diferente, porque o seu prazer está na fossa, na contemplação de um abismo.
Digamos que estamos caminhando a uma direção, qualquer pessoa que saiba que no caminho que segue existe um abismo logo adiante, retoma um caminho de volta ou refaz sua trajetória para outros horizontes. O sujeito com borderline não, ele vai de encontro a esse abismo, como um fenômeno de magnetismo. Ele é atraído pelo abismo e o contempla, como se ali estivesse seu lugar comum, um verdadeiro culto a tudo que é obscuro, sombrio; ele fatalmente se identifica com a melancolia de um buraco que não parece ter fundo, onde não se sabe o que existe dentro dele.
É como se a sensação de mal-estar que existe nele encontrasse um meio e função. Neste local de abismo se faz de forma inconsciente, porém com muita necessidade um culto a dor. O abismo é um estado, uma fase da vida de qualquer borderline, onde ele usa um lugar, uma personagem, uma personalidade para vivenciar de forma irracional o verdadeiro abismo que há dentro dele mesmo. Uma fossa onde não se enxerga o que existe, mas é obvio que só oferece perigo, que claramente nos dá a sensação vaga de completude. Nessa admiração mórbida pela tristeza o borderline pode a vir a pular dentro do seu próprio abismo, fazendo de sua vida um caos.
Sempre tive uma relação de fascínio com a morte, hoje me sinto livre em poder contar o que tinha dentro de mim, lembro que quando criança eu vivi a morte da Lady Diana como se ela me fosse um ser da minha realidade, Ayrton Senna era um quase amigo meu, pós morte, porque vivo não me fazia sentindo nenhum a história de um campeão. Daí vieram as figuras que me atraiam ao que hoje eu sei que era a reprodução de tudo o que tinha dentro de mim, como por exemplo Marilyn Monroe, ela era no fundo triste demais para chorar, seu sorriso, penso eu, era uma forma de violência a ela mesma, era uma resistência a sua dor. Maysa, nossa, essa era meu alter ego, eu vivi Maysa, respirei Maysa, por um bom tempo, me apropriei com paixão a toda dor que eu suponho que ela tivesse, porque me via nela: ” e eu assim tão só, e eu preciso aprender a ser só...”
É estranho pensar que uma pessoa não se preencha, que enxergue dentro de si tão somente um abismo, que mesmo pertencente a ele mesmo, ele o desconheça. Nessa relação com o abismo a vida de um borderline se torna uma ode a sarjeta. Ele alimenta o prazer no desconforto, cria hábitos mais variados de mal viver. O encontro com esse abismo é o começo de uma trajetória de externar toda a dor que existe dentro dele. O abismo para mim tem seu hino, ‘Teatro dos vampiros’ do Renato Russo:
“Sempre precisei de um pouco de atenção,
Acho que não sei quem sou, só sei do que não gosto
E destes dias tão estranhos
Fica poeira se escondendo pelos cantos
Esse é o nosso mundo
O que é demais nunca é o bastante
E a primeira vez é sempre a última chance [...]”
Sim, o mundo de um borderline sem tratamento e compreensão é triste e solitário, ele não se esconde atrás da dor, ele faz da dor sua maneira de viver. O sujeito se acaba em si mesmo, e isso reflete na relação com o outro. Se ele resolve beber, para ele não basta estar bêbado, ele tem que ir além, ele se entrega a dor e quer se personificar a embriaguez; esse tipo de compulsão pode ser caracterizado das mais variadas formas. Nesta fase abismo ele sabe o quanto é inconveniente, o quanto fere, mas não consegue parar, porque ao ser detestável ele está na verdade sinalizando ajuda, o que não significa que ele queira.
Numa fase da minha vida eu sai da obesidade e fui parar na anorexia, eu sabia que estava feia, eu sabia o quanto minha imagem chocava as pessoas, eu tinha consciência que era uma violência a mim, mas a necessidade de mostrar o quanto eu queria estar morta estava sendo escrita no meu corpo através de cada osso que sobressaltava em mim. Sem querer eu estava ali gritando, não com voz, mas com atitudes que estava morta, porque era exatamente assim que eu me via, morta, sem nenhuma função.
Tudo que simbolize a dor em excesso que o borderline sente se torna uma rotina num jogo de roleta russa, onde o border se expõe, se dilacera, se opõe a todos, porque não consegue compreender que o que ele procura, ele mesmo não oferece, e o que ele oferece é estranho aos olhos alheios. Por um bom tempo eu vivia na bebida o que estava dentro de mim: ódio, conflito. Eu já bebia para oferecer ao mundo o que eu queria, dor física, me enchia de coragem para poder partir para cima de pessoas das quais eu amo, das quais eu tinha menos força e poderia me machucar, mas era o que eu realmente queria: me machucar.
Neste estado é quase impossível os que te cercam entender que é uma patologia, que é um modo errante de pedir ajuda, porque a sarjeta dá ao borderline a sensação de verdade, afinal é a legitimação de tudo que ele sente, a vida dele é apenas dor, um grande abismo onde tudo o que ele não entende, onde tudo que ele não sabe lidar, tudo que vivenciou é jogado naquele lugar simbólico que é o sofrimento e o vazio de não se entender, porém embora todo borderline seja resiliente na dor, esse abismo acaba refletindo ao mundo o que o sujeito borderline é, mas tenta incessantemente fugir.
Digamos que estamos caminhando a uma direção, qualquer pessoa que saiba que no caminho que segue existe um abismo logo adiante, retoma um caminho de volta ou refaz sua trajetória para outros horizontes. O sujeito com borderline não, ele vai de encontro a esse abismo, como um fenômeno de magnetismo. Ele é atraído pelo abismo e o contempla, como se ali estivesse seu lugar comum, um verdadeiro culto a tudo que é obscuro, sombrio; ele fatalmente se identifica com a melancolia de um buraco que não parece ter fundo, onde não se sabe o que existe dentro dele.
É como se a sensação de mal-estar que existe nele encontrasse um meio e função. Neste local de abismo se faz de forma inconsciente, porém com muita necessidade um culto a dor. O abismo é um estado, uma fase da vida de qualquer borderline, onde ele usa um lugar, uma personagem, uma personalidade para vivenciar de forma irracional o verdadeiro abismo que há dentro dele mesmo. Uma fossa onde não se enxerga o que existe, mas é obvio que só oferece perigo, que claramente nos dá a sensação vaga de completude. Nessa admiração mórbida pela tristeza o borderline pode a vir a pular dentro do seu próprio abismo, fazendo de sua vida um caos.
Sempre tive uma relação de fascínio com a morte, hoje me sinto livre em poder contar o que tinha dentro de mim, lembro que quando criança eu vivi a morte da Lady Diana como se ela me fosse um ser da minha realidade, Ayrton Senna era um quase amigo meu, pós morte, porque vivo não me fazia sentindo nenhum a história de um campeão. Daí vieram as figuras que me atraiam ao que hoje eu sei que era a reprodução de tudo o que tinha dentro de mim, como por exemplo Marilyn Monroe, ela era no fundo triste demais para chorar, seu sorriso, penso eu, era uma forma de violência a ela mesma, era uma resistência a sua dor. Maysa, nossa, essa era meu alter ego, eu vivi Maysa, respirei Maysa, por um bom tempo, me apropriei com paixão a toda dor que eu suponho que ela tivesse, porque me via nela: ” e eu assim tão só, e eu preciso aprender a ser só...”
É estranho pensar que uma pessoa não se preencha, que enxergue dentro de si tão somente um abismo, que mesmo pertencente a ele mesmo, ele o desconheça. Nessa relação com o abismo a vida de um borderline se torna uma ode a sarjeta. Ele alimenta o prazer no desconforto, cria hábitos mais variados de mal viver. O encontro com esse abismo é o começo de uma trajetória de externar toda a dor que existe dentro dele. O abismo para mim tem seu hino, ‘Teatro dos vampiros’ do Renato Russo:
“Sempre precisei de um pouco de atenção,
Acho que não sei quem sou, só sei do que não gosto
E destes dias tão estranhos
Fica poeira se escondendo pelos cantos
Esse é o nosso mundo
O que é demais nunca é o bastante
E a primeira vez é sempre a última chance [...]”
Sim, o mundo de um borderline sem tratamento e compreensão é triste e solitário, ele não se esconde atrás da dor, ele faz da dor sua maneira de viver. O sujeito se acaba em si mesmo, e isso reflete na relação com o outro. Se ele resolve beber, para ele não basta estar bêbado, ele tem que ir além, ele se entrega a dor e quer se personificar a embriaguez; esse tipo de compulsão pode ser caracterizado das mais variadas formas. Nesta fase abismo ele sabe o quanto é inconveniente, o quanto fere, mas não consegue parar, porque ao ser detestável ele está na verdade sinalizando ajuda, o que não significa que ele queira.
Numa fase da minha vida eu sai da obesidade e fui parar na anorexia, eu sabia que estava feia, eu sabia o quanto minha imagem chocava as pessoas, eu tinha consciência que era uma violência a mim, mas a necessidade de mostrar o quanto eu queria estar morta estava sendo escrita no meu corpo através de cada osso que sobressaltava em mim. Sem querer eu estava ali gritando, não com voz, mas com atitudes que estava morta, porque era exatamente assim que eu me via, morta, sem nenhuma função.
Tudo que simbolize a dor em excesso que o borderline sente se torna uma rotina num jogo de roleta russa, onde o border se expõe, se dilacera, se opõe a todos, porque não consegue compreender que o que ele procura, ele mesmo não oferece, e o que ele oferece é estranho aos olhos alheios. Por um bom tempo eu vivia na bebida o que estava dentro de mim: ódio, conflito. Eu já bebia para oferecer ao mundo o que eu queria, dor física, me enchia de coragem para poder partir para cima de pessoas das quais eu amo, das quais eu tinha menos força e poderia me machucar, mas era o que eu realmente queria: me machucar.
Neste estado é quase impossível os que te cercam entender que é uma patologia, que é um modo errante de pedir ajuda, porque a sarjeta dá ao borderline a sensação de verdade, afinal é a legitimação de tudo que ele sente, a vida dele é apenas dor, um grande abismo onde tudo o que ele não entende, onde tudo que ele não sabe lidar, tudo que vivenciou é jogado naquele lugar simbólico que é o sofrimento e o vazio de não se entender, porém embora todo borderline seja resiliente na dor, esse abismo acaba refletindo ao mundo o que o sujeito borderline é, mas tenta incessantemente fugir.

