Nunca tive receio de fazer um papel ridículo, aliás, o considero sagrado, e só compreendi sua utilidade com o passar dos anos, sei que não se trata das tarefas mais simpáticas que a vida pode oferecer, todo mundo quer ser perfeito, chegar o mais perto possível do que seria o famoso, o desconhecido e apenas imaginável ‘normal’.
Não acredito que correr na contramão seja necessariamente um erro, talvez esteja apenas atrapalhando o tráfego, e se for isso, é exatamente o que eu quero. Por que disso? Bem, porque todo o bom frustrado quer é perturbar, incomodar, justamente por não conseguir caminhar junto dos outros e muito menos acompanhar o pelotão de frente.
O sentido da pura contradição tem lá seus méritos e glórias, exatamente por fazer o sentido inverso do esperado, encontram-se tanto paradoxos fundamentando paradigmas ditos tão verdadeiros, que às vezes, quase me tentam a fazer o mesmo, e me esconder do que realmente eu sou.
Há diferença nas duas situações, caro leitor, um coisa é fazer o caminho de volta e outra é se esconder do que verdadeiramente é; tanta gente que encobre suas vontades em nome de uma normalidade, coitados nunca saberão quem realmente são.
Caminho também não menos penoso para quem sabe o que se é, estes sim, só cabem correr por fora, ser sempre o azarão, a estes não cabe a dor e nem o sofrimento, o silêncio e sorriso fazem as honras da casa, e só nas horas vagas a incerteza do futuro vem incomodar.
Ninguém precisa saber o que se pensa, não ter medo de seguir em frente, seja lá a que custo, faz de qualquer defeito um orgulho, de qualquer tropeço uma glória, mesmo tendo a infeliz consciência de que está tudo errado, a ordem é levantar a cabeça e seguir em frente, os objetivos a atingir não são alimentados de passado.
No olhar de cada homem existe uma sentença de si mesmo e uma para o outro, se esquivar deste julgamento é fingir que não enxerga o óbvio, e ir dando mais munição com uma quase ingenuidade para que o outro se mostre e revele cada vez mais o que sente, enquanto a dor é engolida, a crueldade mastigada vem a tona a consciência de que se fazer de boba é uma arte, no fundo uma tática infalível na busca das certezas.
