quarta-feira, 21 de agosto de 2019

O que quase ninguém vê





   Já insisti que ficasse quem nunca mereceu estar. Já pedi perdão a quem não merecia sequer ser perdoado. Já esperei por alguém que no final das contas, nunca deveria era ter conhecido. Já me culpei por coisas que não estavam à minha alçada, e o que fiz com o que me coube seria motivo de orgulho não consegui enxergar o quanto merecia orgulho, mas em função do outro me desvalorizei.
  Eu já fiz de pessoas uma necessidade que beirava ao vício. Como já fiz de uma mera vontade, um lema de vida. Cultivei amores em terras áridas, talvez para que pudessem ser inalcançáveis.
 Me cerquei de pessoas aparentemente intocáveis, conceitos inabaláveis tomei como meus valores, as coisas se tornaram inexplicáveis, o vazio é antropofágico, o silêncio também ensurdece, assim como existem luzes que cegam.
   E foi assim que criei num universo paralelo, uma espécie de auto exílio ao ponto que tomou proporções de um cativeiro, onde me escondi por anos dos meus medos e das fragilidades que eu repudiava em mim.
   Enquanto isso aqui fora a minha armadilha era vista pelos outros como uma armadura, como se pela existência dela eu, um ser com tantos medos e poucos sonhos, pudesse proteger alguém ou tivesse a capacidade de aguentar, enfrentar a tudo e a todos, situações extremas, sem pestanejar, sem nenhuma nuance do meu eu. Eis o que tomam como minha força: ser resiliente na dor e artimanha de esconder todos medos que há em mim.


quarta-feira, 22 de maio de 2019

A caixa mágica



   

   Desde de criança eu tenho sérios problemas com a minha imagem, havia momentos que literalmente eu voltava a primeira infância, como um bebê que se reconhece pela primeira vez no espelho.              Aquele momento é único, uma descoberta que envolve tantas emoções que acaba sendo recalcada no sentido visceral da palavra; a vida trata de passar uma borracha na sensação inusitada que mescla medo, susto, curiosidade.  Sempre tive uma relação estranha com a minha imagem refletida, apesar de ser sempre cheia de poses e ‘meninices’, ainda era uma desconhecida.
   Esse não reconhecimento de si atravessou minha adolescência, eram pequenos momentos de introspecção que me pegava sempre com os olhos arregalados muito assustada por me ver do lado de fora, nunca entendi o porquê dessas situações. Na adolescência elas deixaram de ser frequentas para ser intensas. Nesses momentos eu abria o chuveiro colocava algo embaixo dele para que ninguém soubesse e ficava ali explorando os olhares daquele ser , que por instantes existia apenas dentro do  quadrado mágico.

   Na fase adulta eu me vesti de um personagem, personagem que não cabia em mim, não por ser grande ou pequena, e é  isso que eu entendo hoje, ela não estava na dimensão real. Eu podia com tudo, era a força, falava alto: nada e ninguém me derruba, meu nome é O’Hara. Ficava surda aos alertas, cega as indicações e sabendo como essa presença exercia poder eu resolvi internalizá-la de forma definitiva, me encantei com o bichinho da beleza chamado vaidade.
   Por que não posso ser e não apenas representar? Eu quis acreditar na pessoa auto confiante que eu me apresentava, cheia de si que absolutamente pouca coisa abalava. Por fora, porque por dentro eu estava um caco, meu namorado da época, o ser quer me apegava e cultivava como salvação de uma praga (talvez não fosse uma praga, possivelmente um trauma no momento de separação da minha irmã) que me persegue  desde muito tempo: você nasceu para ser sozinha apontava sua saída ao me chamar do que até então eu não havia me sido esbofeteado a face, porém já tinha consciência eu apenas não assumia, a feiura, que eu joguei em cheio pra dentro de mim pela culpa de ser gorda. Eu só me apeguei no que eu podia mudar:  o número do jeans.

   Fui atrás de um médico famoso como Dr ‘Caveirinha’ e foi ali que iniciei meu processo de emagrecimento, a base eram remédios como sibutramina, topiramato, laxantes, diuréticos, muito café, pouca comida, cigarros é obvio calmantes a hora e o momento. Acordava às 4 é 30 da manhã todos os dias para uma jornada que só terminaria as 19 e 30 da noite, mesmo assim, meu café da manhã já era um clonazepam.
     A única coisa 'bacana' foi entrada da atividade física, o que fazia da minha jornada até 20 e 30 hrs, com esse cenário não foi difícil emagrecer. Pena que era esporte de luta, não aproveitei o auto controle, o usei para fazer justiça e assim, como em tudo na minha vida, fui convidada a refletir e me perguntar se eu realmente estava no lugar certo. Saio do esporte.
    Começo a me tratar por um tempo, depressão, o processo de tratamento psiquiátrico é lento. Me fadava, abandonei e voltei a vida de bebida, rotina pesada e mais emagrecimento, eu me pesava todas as manhãs, as roupas caindo eu sabia que não ia nada bem, mais um laudo sindrome do pânico achei que fosse morrer. Mais um tratamento, mais remédios e todos os não "pode" que me afastavam do meu desejo. Abandono mais uma vez minha saúde mental.
 Arrumo enfim alguém apresentável,  com seu próprio emprego, aparentemente sério, começo um  namoro, uma pessoa que a família dizia que eu estava ótima, mas dentro de casa me lembrava a cada segundo o quanto já tinha sido feia, minhas relações sexuais tinham que ser vestida porque segundo ele meu avental adiposo me deixava com o aspecto de aleijada. Outro colapso físico, sensação de morte, quando não tomava caixas de laxantes a comida saia sem eu mesmo querer por via oral ou anal, outro diagnóstico TAG, que eu chamo intimamente de amostra grátis do inferno. Terminei o relacionamento por n outros motivos além das agressões psicológicas que passaram a ser física. O que me deixou marcas depois descobertas. Mais uma vez outro tratamento, mais um afastamento da sala de aula. O que eu sempre senti como punição, afinal não tinha auto imagem, mas me reconhecia nas crianças.

   Mais um tratamento e um afastamento. Melhoras eram poucas, outro abandono.Escrevi então no corpo a morte em mim, pesei 43kg, laudo anorexia nervosa. Chegar a esse ponto era um pedido de ajuda, era uma prova viva que tudo estava indo muito mal. Que me sentia morta por dentro. 
   Ao  retomar a minha luta com o espelho, nota-se: digo espelho, não disse balança e nem beleza eu travava ali uma luta sem o menor sentido, porque eu usava do meu corpo para guerrear com a minha mente e mais um diagnóstico: stress, hoje depois de anos pós muitos e variados diagnóstico consigo entender isso. Porém a época eu decidi vestir a armadura medieval e brigar com os duendes imaginários do meu jardim, não poderia ter escolhi arma pior a altura do campeonato: o pó de bruxa. Chamo de pó de bruxa porque remédios para emagrecer abrem a porta do seu próprio inferno, todos os seus demônios vem à tona, pode demorar semanas, meses ou anos, a conta chega.

   Depois de quase 3 anos  de tratamento de TPB voltei a ser o que eu mais temia a mulher gorda, desengonçada, introspectiva, mas com muita força, sou como Sansão sem as gordurinhas perco a força, foi-se embora o pouco de beleza que me restava com o tratamento ao borderline e seus pesados remédios.  É raro manter vaidade com saude mental.
   Hoje eu sei que o espelho nunca foi meu amigo, eu ainda não construí o que sou, se construir também tenho a capacidade de destruir.  Sou mutante, camaleão O corpo mente descobri que não tenho forma, o problema não está no espelho é muito menos na balança está na eterna e exaustiva busca de me achar e consegui me manter em algum lugar que eu possa me descrever . Isso é embaraçoso quando resgatei devido ao que descobri em relação ao espelho e a balança  num velho texto de 2008.

No mundo do meu espelho
  As verdades do meu espelho descobriram enfim, que são efêmeras, no mesmo instante que as enxergo elas se desprende de mim como filhos que se vão e ganham o mundo. Penso e as faço como meu bem quero, as disponho por meros momentos de consciência.
   Verdades que cabem apenas no meu mundo, coisas que eu sei, por mais que não quisesse, que não passam de minha eterna solidão. Ganho o mundo, venço o medo de estar só, com isso, nestes segundos nada mais importa, apenas o meu eu.
   A verdade chega, toda de uma vez, como na dor de uma queda, percebo que o meu eu não é assim, tão meu quanto eu pensava. Não sou nada, no mesmo tempo, sou tudo, sou mundo, enfim, às vezes solidão.
Reluto, busco, comigo e com mundo, para no fim das contas entender que faço meus os pensamentos alheios, dos outros verdades não ditas, faço de mim a realidade de ser outro e busco no mundo fragmentos de mim (fim).

   Se torna  curioso porque na época que eu escrevi eu ainda não tinha a nenhum dos namorados, quando muito fazia pequenas dietas, mas de tudo já sabia que como auto imagem  sempre fui um espelho quebrado tentando ser remontado. Não posso fechar esse assunto, porque nada é fechado na minha vida, hoje exploro reconhecimentos do terreno que hábito, não gosto do que vejo, não tomo como meu aquilo que vejo, talvez viva para sempre essa insatisfação que não tem culpa de ninguém até que eu permita, é meu não ver e não ser o que gostaria. O espelho hoje ainda é uma caixa mágica que a cada hora me aparece um ser.




sábado, 4 de maio de 2019

Triste poeminha

Aprende a ser sozinha menina, digo a mim mesma na escuridão.
Você não é andorinha, também não vai fazer verão.
Repouse suas asas e entenda que o seu lugar é no chão.
Não pare acaso

sonhar, mas aceitei sem  indignação.
Sim, existem pedras, mas não tem problema não.
Um dia você  se acostuma a andar nelas.
Nesse dia você vai entender que se acostuma a se dizer não.
Um dia você  acostuma que nem todo dia se acerta.
Aliás seu lugar é no  de aplauso, na platéia, no encantamento do mundo, olhando luzes em meio a escuridão.
Você, justamente você, que nunca quis e nunca cobrou nada da vida, porque sabe  que é a sua cruz.
Não a coloque no chão porque você também  sabe das consequências.
 Chore sozinha, ria sozinha, não espere nada de Nada, apenas admire o mundo afinal é privilegiada a sua posição.
Não é todos que tem como porto o cais da solidão.

quarta-feira, 27 de março de 2019

S.O.S





    É tão fantástico  pensar que cada um é responsável por dar algum tipo de sentido a própria vida, é tanta coisa que acontece, que parece que todos os fatos são retalhos de uma colcha costurados uns aos outros. É isso que eu invejo nas pessoas, essa associação mística de algo predestinado que vai chegar ao seu ápice.
    Sempre observei as pessoas fortes elas tem um controle de si,  mesmo quando cai uma lágrima, é uma demonstração de força e de que vai tentar novamente. Não importa para onde o vento as empurre elas seguem suas linhas retas.
    Também comungo com gente altiva, que passou e passa por tudo, mas não se entrega, olha a vida de nariz em pé e mãos na cadeira, desafiando a única coisa que temos que é a vida a afrontá-la, a aprontar mais uma pra vê se ela não aguenta, no entanto ela sabe que aguenta.
    Essas pessoas passam vida, mesmo com seus medos , suas angustias e suas dores. Sinto que ainda estou na beira da estrada, não sei onde ela vai me levar, tenho medo de perder o pouco que ainda tenho de meus fracassos, afinal eles nunca me abandonam.
    Me acostumei a não ter sentido na vida, tudo acontece para quem está vivo e não existe um a causalidade nossa fatos. Nunca tive controle de mim, aliás sou uma máquina de desastre, um papel na ventania. Jamais afrontaria a vida, eu descobri que isso não é pra todos.
    Mas criei meu método s.o.s, superficial, obediente e sóbria.  Isso sim tem dado certo. Se saio disso é um caos, sinto meu mundo ruir. Eu já não tenho muitas pessoas economizar todas as elas do que eu sou já evita muita coisa.
Todos os dias eu acordo e penso: ok, menos um dia. Todos os dias quando vou dormir peço perdão ao cosmo por ser quem eu sou. Por isso me sinto tão confortável no vazio e na solidão, eles sempre me acolheram, nunca me disseram não. Aposto nesse projeto porque eu não machuco a ninguém e ninguém me machuca.  Não está perfeito, mas com o tempo eu Sei que vou perder o vício de esperar ou pautar minha vida no outro ou nas coisas .
    Os dias e as horas doem, mas as lembranças são uns curativos mal jambrados, mesmo com seus defeitos já servem pra saciar e segurar o espírito. Pode parecer esquisito, e é, mas é melhor assim. Chega de ser a problemática,  o estorvo,  com o S.O.S evitaremos muitas verdades na minha cara, ninguém mais do que eu sabe o quanto sou tóxica, lixo e peso, então caminho à parte pra não contaminar ninguém. Isso é um problema meu que as pessoas possam pelo menos se sentirem protegidas do meu próprio caos