sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Tempo


Um silêncio perturbador toma conta da minha alma, o mundo a minha volta se silencia e o som que ouço são apenas as batidas do meu coração, isso não me dá medo, porque sei que isso é o passar das horas.
 Não tenho medo do tempo, ele é a vida ditando o seu ritmo...  Apenas o que peço é que seja lento, saudoso, manso como um rio para que em minha imaginação eu possa voltar atrás e viver absolutamente tudo outra vez, mesmo os erros, as alegrias dos acertos.
Sem pressa do amanhã, sem vontade nenhuma que o tempo corra, quero aproveitar cada segundo, acreditar como uma criança, que o mundo foi feito só pra mim, que tudo que existe é por minha causa e que aos outros eu apenas divido essa grande dádiva.
Vivo sem pressa porque não me perturbo pelo passado, já foi, fugiu das minhas mãos, apenas busco compreender o que com ele aprendi... Embora acredite no amanhã, faço por onde ele seja melhor, sei que tudo o que tenho é o tempo de hoje.
Só quero que com o passar das horas eu aprenda mais, viva mais intensamente, perca de vez tudo que me prende, amadureça o máximo possível e ame cada  dia mais tudo o que eu pude ir recolhendo com o tempo que me foi destinado.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Caixa Registradora

-->
Nunca abri mão de acreditar até mesmo nas minhas falências emocionais, e ser verdadeira comigo sempre me impulsionou ir a fundo. A sinceridade devotada a si mesmo é o único conselheiro nas horas difíceis da vida, apesar de muitas vezes vir personificada como a própria crueldade, é tudo que ainda pode se agarrar como sanidade quando o desespero bate as portas.
Saber o saldo real da vida necessita-se manter com a cabeça aberta, longe da neblina da frustração, sem medo de encontrar pela frente a verdade; ai sim se torna possível calcular o que cada um vai levar desta vida, o que de fato recebeu e o que jogou fora, o que foi aprendido, o que foi ensinado, qual o sentido das coisas e se o que era tido como grande sonho não era apenas uma ilusão.
A culpa, o medo e a decepção são apenas inconvenientes; não as levo mais para casa, todas as três não têm serventia alguma na vida real. A vida fica entediante se resumida no eterno vício do maniqueísmo; a busca de qualquer objetivo se torna simplória, exatamente porque estão apegadas apenas no resultado, talvez seja por isso que a humanidade esteja tão sem sentido.
O arranjo da vida se dá por si próprio, nada tem haver com as nossas vontades e anseios. E para todos, ela guarda um presente e um surpresa, muita vezes algo bobo, coisas tão subjetivas que só o proprietário atribui valor, caso esteja ainda consciente que a vida é muito maior que a nossa existência, cada um no fundo sabe que o que realmente vale a pena nesse mundo é justamente o que não é palpável.
Os pesos das decepções com anos passam, e isso vamos combinar, é inevitável, o que fica mesmo é apenas uma vaga lembrança do infortúnio, a gana de ter chegado tão perto de fazer do imaginável uma realidade. O que eu não entendo é o motivo pelo quais todos nós acreditamos que o erro deve ser lamuriado, o tempo não volta atrás. Sábio mesmo foi quem poetizou: “Para que chorar pelo leite derramado?”.
Vivemos uma eternidade nos martirizando para descobrir no final das contas que o importante mesmo é estar vivo para ir guardando tudo o que pode ser recolhido/vivido em nossas trajetórias. Muito foi adquirido com o passar dos anos, outro tanto foi perdido, porém fica tudo marcado na caixa registradora da vida, chamada memória.

sábado, 24 de abril de 2010

Pequenas Divagações

-->
Nunca tive receio de fazer um papel ridículo, aliás, o considero sagrado, e só compreendi sua utilidade com o passar dos anos, sei que não se trata das tarefas mais simpáticas que a vida pode oferecer, todo mundo quer ser perfeito, chegar o mais perto possível do que seria o famoso, o desconhecido e apenas imaginável ‘normal’.
Não acredito que correr na contramão seja necessariamente um erro, talvez esteja apenas atrapalhando o tráfego, e se for isso, é exatamente o que eu quero. Por que disso? Bem, porque todo o bom frustrado quer é perturbar, incomodar, justamente por não conseguir caminhar junto dos outros e muito menos acompanhar o pelotão de frente.
O sentido da pura contradição tem lá seus méritos e glórias, exatamente por fazer o sentido inverso do esperado, encontram-se tanto paradoxos fundamentando paradigmas ditos tão verdadeiros, que às vezes, quase me tentam a fazer o mesmo, e me esconder do que realmente eu sou.
Há diferença nas duas situações, caro leitor, um coisa é fazer o caminho de volta e outra é se esconder do que verdadeiramente é; tanta gente que encobre suas vontades em nome de uma normalidade, coitados nunca saberão quem realmente são.
Caminho também não menos penoso para quem sabe o que se é, estes sim, só cabem correr por fora, ser sempre o azarão, a estes não cabe a dor e nem o sofrimento, o silêncio e sorriso fazem as honras da casa, e só nas horas vagas a incerteza do futuro vem incomodar.
Ninguém precisa saber o que se pensa, não ter medo de seguir em frente, seja lá a que custo, faz de qualquer defeito um orgulho, de qualquer tropeço uma glória, mesmo tendo a infeliz consciência de que está tudo errado, a ordem é levantar a cabeça e seguir em frente, os objetivos a atingir não são alimentados de passado.
No olhar de cada homem existe uma sentença de si mesmo e uma para o outro, se esquivar deste julgamento é fingir que não enxerga o óbvio, e ir dando mais munição com uma quase ingenuidade para que o outro se mostre e revele cada vez mais o que sente, enquanto a dor é engolida, a crueldade mastigada vem a tona a consciência de que se fazer de boba é uma arte, no fundo uma tática infalível na busca das certezas.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Escrevendo

Odeio quando uma situação fica congelada na minha cabeça, como se fosse uma imagem, fica se repetindo, parece que no intuito de me torturar, se repete por horas, dias, meses, anos! Gostaria tanto que sumissem de vez da minha memória, por que não num simples ‘delete’ elas entendessem que eu não as quero perturbando o meu imaginário?
Sempre tenho a infeliz impressão que repassa-las em detalhes poderia eu, logo eu, mudar o final das projeções. Torno-me frustrada quando não acontece o ‘happy end’, e então, volta desde o começo da fita. Pior ainda quando quero congelar as imagens nos piores momentos; eu sei exatamente os erros que cometi, não preciso revivê-los para entender o que eu não devo fazer mais.
A vida seria mais fácil se fosse um livro, queria tanto ser o autor da minha vida... Superaria todos os fracassos, ressaltaria tanto as minhas vitórias que o fim ficaria perfeito, mas por outro lado, talvez seja isso que o destino faça: tudo no final das contas se torna compreensível.
Então vamos esperar, sem nos inquietar, que o destino faça a sua parte torne legível o que eu não consigo ler hoje, que traga a tona o que ele escreve nas entrelinhas, sem que seja necessário a toda hora repassar todos os capítulos, e principalmente, que todos os enigmas inventados pelo criador e pela criatura sejam desvendados.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Carta ao vento

Talvez quando anoitecer e a rua esvaziar, na hora em que o silêncio aterrorizador escolhe para torturar de lembranças vãs, mesmo as mentes mais sãs; quando a solidão vem para preencher as lacunas existentes do que é passado e daquilo que apesar de tão vivo, nunca existiu, você permita que o vento lhe diga num sopro, de uma só vez, as verdades que nunca poderei dizer encarando seus olhos.
Que mesmo com toda a decepção, seria incapaz de dizer que a dor não valeu a pena; que mesmo tendo sido breve os momentos de felicidade, vão ficar para sempre como os momentos mais bonitos; que ainda alento uma emoção ao pensar nas coisas que quase aconteceram e que fundindo toda a história em uma só palavra, seria paixão.
Todas as desgraças, as muitas desilusões, com toda a certeza, vão se perder na poeira do tempo, e o que vai restar é um retrato perfeito de algo que se foi, que perdido no passado, não vou querer entender o porquê que se findou. Guardo a você, como a todos que passaram pelo meu destino, uma recordação bonita, um sentimento, uma frase inacabada.
Aproveito para pedir ao vento que lhe diga para não se esquecer de mim, como eu tanto gostaria de poder me esquecer de você; que nunca se arrependa porque nossa hora já se foi, por fim, que a vida se encubra de desfazer a dor que carrego no peito que atribuem a ela o nome de saudade.