quarta-feira, 21 de agosto de 2019

O que quase ninguém vê





   Já insisti que ficasse quem nunca mereceu estar. Já pedi perdão a quem não merecia sequer ser perdoado. Já esperei por alguém que no final das contas, nunca deveria era ter conhecido. Já me culpei por coisas que não estavam à minha alçada, e o que fiz com o que me coube seria motivo de orgulho não consegui enxergar o quanto merecia orgulho, mas em função do outro me desvalorizei.
  Eu já fiz de pessoas uma necessidade que beirava ao vício. Como já fiz de uma mera vontade, um lema de vida. Cultivei amores em terras áridas, talvez para que pudessem ser inalcançáveis.
 Me cerquei de pessoas aparentemente intocáveis, conceitos inabaláveis tomei como meus valores, as coisas se tornaram inexplicáveis, o vazio é antropofágico, o silêncio também ensurdece, assim como existem luzes que cegam.
   E foi assim que criei num universo paralelo, uma espécie de auto exílio ao ponto que tomou proporções de um cativeiro, onde me escondi por anos dos meus medos e das fragilidades que eu repudiava em mim.
   Enquanto isso aqui fora a minha armadilha era vista pelos outros como uma armadura, como se pela existência dela eu, um ser com tantos medos e poucos sonhos, pudesse proteger alguém ou tivesse a capacidade de aguentar, enfrentar a tudo e a todos, situações extremas, sem pestanejar, sem nenhuma nuance do meu eu. Eis o que tomam como minha força: ser resiliente na dor e artimanha de esconder todos medos que há em mim.